Após sair do American Airlines Theatre, alcançou um porta-cigarros no bolso esquerdo de seu sobretudo. Os cigarros estavam divididos em dois grupos, pegou sem ver um da direita, que vinha com a marca "Dunhill" logo acima do filtro, acendeu, tragou e começou a andar naquela rua movimentada. Saiu abraçado com uma garota e acompanhado de outras duas que conversavam sem parar.
Tudo começou quando decidiu assistir a montagem de Cyrano de Bergerac que estava em cartaz. Convidou uma colega de empresa, na esperança de que encontrasse outra Patrícia, mas deparou-se com o namorado e duas amigas a tira-colo que sua colega trouxe. Resolveu ver até onde ia o buraco do coelho e teve uma agradável surpresa quando reparou que, uma das amigas, era bem interessante, seu nome era Christina.
Christina trabalhava no setor de logística internacional, sempre em contato com a antiga matriz da empresa. Dedicada e inteligente, a jovem possuía um corpo de dar inveja em Patrícia, não sem suas falhas mas, a essa altura, isso não mais importava Talvez quisesse se lembrar novamente do que era ter uma mulher comum.
Elas queriam beber e continuar a noite, porém, a convidada e o namorado precisariam passar em casa. Uma das amigas se perdeu no caminho. Restou sozinho com Christina e prontamente levou-a para o François, melhor restaurante/bistrô da região, do qual era o dono.
Sentaram-se.
-Sabe, eu já sonhei que era capaz de alterar a realidade, criar mundos, criar situações - disse a garota
- E o que você acharia disso? - responde com um sorriso sarcástico no rosto.
- Ah... eu não sei. Eu alimentava esses sonhos mas depois de um tempo parei, acho que por preguiça de imaginar.
- Um pecado. Já pensou em quantas histórias você não deixou ganhar vida? Quantas possibilidades... - replicou, empolgado por um instante.
Então o casal retornou, e todos conversaram amenidades, com uma ou duas oportunidades de trocar uma ou duas perguntas pessoais com Christina. Por volta de 1 da manhã decidiram encerrar a noite e voltaram caminhando, o casal na frente. Logo atrás, abraçado com ela:
- E se nos assaltam aqui? - perguntou com ar de preocupação.
- Podemos conversar com o assaltante e, quem sabe ele não decide que serviríamos mais como amigos do que como alvos? - retruca de forma provocante, rindo.
- Anh, não brinca assim. Esse lugar é perigoso, além do mais, por qual razão ele não nos assaltaria?
- Não, não pense assim. Pense: "por qual razão ele nos assaltaria?" Pense na história da vida dele, no que o levou até aqui, no motivo de escolher-nos...
E assim foram conversando, se despediram do casal e por fim, terminaram a noite na portaria do prédio dela. Um beijo longo, apaixonado e um gosto estranho na boca. Começou a andar na direção de seu apartamente, acendeu outro Dunhill, deu dois tapas no ombro esquerdo e disse "hoje quero sonhar".
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