Second Chapter



O vento carregado de areia não parava de soprar naquele deserto e que combinado com o sol forte, impedia quase qualquer um de andar mais que alguns passos. Entretanto, um homem encapuzado cruzava as dunas de forma tranquila, dificilmente se esforçando para lutar contra a natureza, pelo contrário, ele se deixava levar pela tempestade, quase como se ela o acompanhasse.

É sabido que, naquela terra de clima impetuoso, somente o homem mais impetuoso sobrevive. Seu porte esguio, não muito alto, musculoso e sem um milímetro de gordura desnecessária, indicava um corpo que fora treinado até o ápice de sua raça. O que a proteção de couro não mostra, no entanto, é a experiência prática que este homem, e sua adaga encrustada a que foram expostos.

Em pouco tempo ele chega a um abrigo de madeira, forrado com couro de camelo, feito às pressas por beduínos para se protegerem das tempestades. Ele era um homem habituado à vida citadina, becos escuros, tavernas excusas, pedras e sombras, mas sabia muito bem sobreviver em qualquer ambiente natural, não por habilidade, mas por já ter experimentado situações difíceis em quase todos eles.

Assim que os olhos se acostumam com o ambiente mais escuro, nota no canto uma figura de pele negra, ligeiramente menor em estatura mas com o mesmo porte ágil, sentado no chão. Um chapéu de abas largas esconde o rosto, mas o viajante não parecia se importar com isso, e senta-se ao lado dele... Além do chapéu, era impossível não notar os brincos, as pulseiras e as cores cintilantes presentes por todo seu corpo, na forma de adereços e peças de roupa, um verdadeiro dândi.

"Conseguiu encontrá-lo?" - pergunta o homem encapuzado. "Não. Mandei meus melhores homens procurá-lo, mas parece que ele simplesmente desapareceu, restou apenas isto onde acreditamos que repousava". - responde o dândi e entrega um pequeno livro com uma capa de couro detalhada com um padrão de filigrana prateada.

"Sumiu, é? Deixe-me ver então o que restou..."

O viajante retira seu capuz e mostra um rosto sério, cabelo preto e bem curto, cuidadosamente aparado assim como seu cavanhaque e bigode, tendo o resto do rosto limpo.
Ao abrir o livro, ele percebe que não se trata de um livro propriamente, e sim de um diário, que dizia...



"Quantas cores tem o mundo? Acho que somente essa pergunta não é capaz de dar conta da sua proposta..."

" Nasci de um pai nobre e uma mãe bem simples, a meu ver, simplória, e sempre a desprezei por isso. Desde pequeno sempre tentaram me ensinar a amá-los, assim como a amar a todos os outros ao meu redor, reconhecendo neles um valor intrínseco simplesmente pelo fato de estarem vivos e serem meus semelhantes.

Não sei o quão normal isso é para os outros, mas para mim, eu nunca consegui entender o por quê disso. Tive uma infância e uma educação normal, alguns desvios mas sempre dentro do esperado dentro da minha sociedade. No entanto, nunca consegui vê-los igualmente dignos de compaixão, ou de respeito. Outro dos valores que me fora ensinado é que os mais velhos devem ser respeitados em função de sua experiência de vida e que, portanto, fazia deles os mais sábios.

Eram essas verdades incontestáveis ? Existe algo como uma "verdade incontestável", se até mesmo os deuses morrem e seus postos são tomados por outros ?
É verdade que idade é igual a sabedoria ?
Não.


Posso dizer que sempre tive um senso crítico mais apurado que meus pares, que aceitavam como doutrina religiosa tudo o que lhes era transmitido mesmo fora dos espaços religiosos. Será que nunca tiveram a curiosidade de parar e se perguntar: POR QUE algo é assim ?

I

Tive sorte pois, bem no início da minha jornada, encontrei uma alma semelhante e ao mesmo tempo tão diferente... explico: quando não se conhece nada além do próprio mundo, do vazio angustiante que é ver a mesma e única cor (por exemplo: o branco), o negro se torna o oposto, e portanto, o perigo, a erva-daninha.

Eu, que me via um ponto de escuridão, encontrei nesta outra alma, alguém que carregava consigo a escuridão, de tal forma que a carregava até no nome. E por ousar voar mais alto que lhe era permitido, atribuiu a si mesmo o epíteto de "águia". Eu o chamei de "corvo", pois era sempre a escuridão mal-vista perante os olhos dos outros.

Este foi meu primeiro amigo e companheiro.


Pouco tempo após encontrá-lo, e com isso, sair daquela sociedade tão fechada em torno de si mesma, encontrei uma barda. Com ela, a "menina da fortuna", capaz de mudar o destino das pessoas ao seu redor, que eu encontrei um motivo nobre pelo qual viver, para viver por algo mais que aproveitar os prazeres da vida.

Ela, a "menina do destino" pelo destino derrotada, que me ensinou que o mais importante em uma existência é ter amigos, amigos-irmãos, sejam eles consanguíneos ou não, o que importa é que sejam pessoas que estejam ao seu lado quando for preciso.

Foi ela minha melhor amiga e a mulher que mais amei.





Interlúdio - A Casa

Enquanto aprendia essa lição, alguém que conheci brevemente no início da jornada reapareceu na minha vida, mostrando-me o quão certa minha querida barda estava.

Em minhas viagens, decidi junto ao "águia" fundar um refúgio utópico, onde pudéssemos encontrar e reunir outras almas e mentes que se assemelhassem às nossas. Assim, fundamos "A Casa" e pude conhecer muitos indivíduos, no entanto, apenas alguns poucos restaram. Se isso foi sorte ou destino, não sei dizer, mas sei que, como diz um conhecido meu "Pela graça dos deuses, eu não estou sozinho".

Foi nesse período que conheci ele:

O mais puro de todos os meus irmãos, fiel a seus princípios e sua fé, capaz de instilar uma aura de sacralidade quando põe-se a falar de suas convicções. Sempre de bom humor, disposto a fazer ou rir de piadas, por vezes pondo-se como motivo das piadas, prezando acima de tudo a harmonia entre os seres. Algumas vezes cabeça dura, de pavio curto, mas incapaz de magoar alguém, sobretudo sua família.


Ele, de todos os meus irmãos, é aquele que estará comigo até o fim dos tempos, não importa o que aconteça, ele será o primeiro a me proteger e o último a cair.



Aqueles que ficaram ao meu lado após todo esse tempo, os tenho na mais alta estima, e são eles:

O pensador niilista, com quem eu podia rir da mediocridade alheia;
O companheiro de fogueiras ao luar, aquele que ainda hoje guarda no peito a saudade desses tempos;
O solitário sem esperanças, que foi aprendiz e rapidamente tornou-se companheiro e irmão;
O sábio lúdico,  que me lembra de manter o bom humor pois o desespero sempre espreita.

Todos estes apareceram na minha vida mais ou menos na mesma época, e juntos fundamos um grupo de poetas, cantores, pintores, duelistas, enfim: artistas. Solitários dentro de nossos próprios mundos e realidades.




[Encontrávamos uns nos outros, a resposta para a pergunta que ninguém mais queria enxergar: "Quantos tons as cores do mundo possuem?"


Não me importa se o mundo possui uma, duas, três ou mais cores. Me importa que elas não são começo nem fim em si mesmas. Elas são mais do que se mostram, elas possuem tons, de acordo com a luz que se joga em cima delas (ou a escuridão que se joga).


Nós víamos o mundo sob a luz da lua, mais pálido e frio diziam os que não nos entendiam. Eu chamava de aconchegante. O tempo passou, e embora o grupo tenha cada um ido para seu canto, onde houver uma fogueira acesa, lá nos reuniremos.]

II

Posso dizer que, desde a vez em que aquela sociedade em que eu vivia não conseguiu mais me conter e me expeliu, eu vivi "correndo com os lobos". Nesse tempo, pude perceber, juntamente com os tons da vida, que idade não é igual a sabedoria. Eu vi e vivi muita coisa nesse tempo, as árvores trocaram de folhas incontáveis vezes...


Prossegui então minha viagem para percorrer as últimas milhas da minha alma de ontem até a de hoje.


Conheci um "tolo", um tolo idealista que, quando conversamos pela primeira vez, vi que tinha muito a aprender. No entanto, muitas águas já correram, já o apoiei em momentos difíceis e tive a sorte de tê-lo ao meu lado quando a alegria me faltou. Hoje, quando falo com ele, posso ter certeza de que falo com um igual.



Ao lado desse tolo, conheci outras figuras que marcaram nossas vidas profundamente: a ingênua sacerdotisa; o mago atormentado; o cruel e sombrio diplomata...

E claro, não posso deixar de prestar minha homenagem aqui àquele que possibilitou meu encontro com todas estas figuras.

Ele, o bardo filósofo da cidade da canção e do amor, o bardo das mil máscaras: estudioso da natureza, tecelão de histórias, desterrado, idealista...  Aquele com quem melhor pude conversar sobre os tons que existem entre as visões comumente professadas.




Interlúdio - Sabedoria

I

Nesta parte da jornada, vi inúmeros exemplos das tonalidades que o cinza pode adquirir, conheci pessoas que tiveram o dobro de experiências, oportunidades e situações, mas permaneceram no mesmo grau de aprendizado em que começaram. Olhando para o passado, vejo agora que, instintivamente eu desprezava minha mãe por reconhecer isso nela.

De nada adianta ter longevidade, ter experimentado muitas sensações e situações, sem tê-las transformado em sabedoria, sem tê-las examinado a fundo e aprendido, ou melhor, compreendido seus sentidos.

II
Tive a chance de conversar e até mesmo conviver com algumas figuras de caráter muito interessante. Outras não pude conviver, apenas falar e defender-me de algum ataque que lançavam sobre mim e posso dizer que isso tudo proporcionou-me um certo prazer e uma certa indignação.

Explico-me, mas antes devo deixar claro que não estou aqui me referindo ao campo legal, não me interessam as leis dos povos, pois falo aqui do imaginário dos povos, de conceitos que estão presentes em cada sociedade das chamadas "raças benignas":

Sempre ouvi que na vida existem duas forças, ou duas linhas guia para todas as ações, portanto, ou a pessoa se posiciona como pertencente ao "bem" ou ao "mal".

Desde que me entendo por ser pensante, nunca acreditei nisso, afinal, nunca compartilhei dos mesmos sentimentos que a maioria. No entanto, não tinha pretensões de entrar em discussões sobre minha opinião pois as poucas vezes em que o fiz, não fui ouvido.

...

Me pergunto como reagiria o sujeito medíocre acostumado a valores tão utópicos quanto "bem" e "mal" ao se confrontar com as seguintes situações:


- Em uma guerra, todos aqueles soldados que estão do outro lado, tentando matá-lo, são eles malignos? Ou tentam apenas defender suas terras dos invasores? Não são eles tão obrigados a lutar nas contendas de seus superiores como tu?


- Se teu filho ou tua esposa fossem assaltados e voltassem para casa com uma ferida ou mesmo membro a menos pois tentaram se defender, irias pensar que o assaltante tem fome? Ou que a vida dele o fez assim, e que somos todos produtos do meio e do tempo em que vivemos?

- E quanto aos que cometem atos tidos como cruéis ou malignos, em prol de um dito bem maior? E se a única forma de impedir que um deus antigo e "maligno" ou um monstro invencível sejam invocados para este mundo, necessite do sacrifício ritual de vidas dos seus companheiros?
Salvar alguns em prol de todos, não parece uma troca justa e racional, e ao mesmo tempo benéfica para todos a curto e a longo prazo?

- E as guerras em nome dos deuses, onde clérigos e sacerdotes se envolvem em disputas sangrentas em nome de seus deuses ?

- E aqueles que simplesmente não acreditam que todas as vidas são igualmente preciosas, e que pessoas podem ser apenas objetos, meios para um fim?


Quem tem o direito de dizer o que é bom ou ruim para alguém senão si mesmo?
Quem tem o direito de estabelecer o que é o bem ou o mal?


Mesmo os assassinos e todos aqueles sem nenhum respeito pela vida, deveriam eles passar a respeitá-la apenas porque você acredita que todos devem? Isso seria, no mínimo, ingenuidade... A lição mais difícil de ser aprendida, é a de que "bem" e "mal" são conceitos que dependem do ponto de vista de quem está julgando, cabe também lembrar que ninguém vê o mundo exatamente da mesma forma que os outros.






III
 As últimas milhas foram sicrônicas com minha convivência ao lado do "bardo de mil máscaras" e do "tolo". Neste último trajeto de minha jornada novamente encontrei muitas pessoas, mas poucas ainda restam no meu entorno.


O irônico assassino, frio, calculista e talvez o único que é capaz de me rememorar o caminho da lucidez pragmática, quando perco o controle. Por trás da acidez e da ironia, tive a felicidade de ver sua amizade por mim. Quando olho para minha direita, lá está ele.


O caçador do sul, que me apoiou em um dos meus momentos mais difíceis nos invernos recentes, graça que pude retribuir quando ele mesmo enfrentou seu desafio mais intimidador. Alguém com quem sempre posso contar para uma palavra de conforto.


Também conheci uma mulher que pensava de forma muito parecida comigo, mas um tanto quanto mais aversa ao prospecto de viver em sociedade. Ela encontrava nos animais muito mais consolo e companheirismo do que nos bípedes que dominam as terras.


Por fim, conheci a mulher que seria a mais perfeita companheira para minhas jornadas futuras, mas o mundo não é justo e me deu apenas uma pequena prova da perfeição que pode-se alcançar num relacionamento onde ambas as partes estão emocionalmente maduras.

Superada a perda, decidi escrever este pequeno e conciso relato da minha vida até o presente momento, seguro de que só me resta agora conhecer novos horizontes e encontrar outras almas que compartilhem ou estejam abertas às histórias que desejo contar.


...つづく

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